O pai e a mãe de todos os «cortes»… <br><i>Banca, Secretas e Santa Sé</i>

Jorge Messias

«Ao todo, em Portugal, há nove paróquias dirigidas por padres jesuítas: uma no Algarve, uma no Alentejo, quatro em Setúbal, uma em Lisboa e outra na Guarda… registam-se (apenas) 161 jesuítas dos quais 100 são padres» (Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 22.10.2013).

«Queremos que a Economia Social tenha um papel central no futuro de uma sociedade sustentável… É possível, com este sector, conseguir o mesmo PIB do que, por exemplo, no Turismo (9%)… O Estado deve reconhecer e apoiar agentes da economia social através de um Protocolo com as instituições sociais, e é nesse sentido que o Governo tem trabalhado... Depois disto, estas instituições viram as suas dívidas regularizadas...» (Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, na Assembleia da República, em 5.4.2013).

«Num contexto de desmantelamento dos direitos sociais, o neoliberalismo tenta justificar, através do discurso da solidariedade social, a expansão do Terceiro Sector como alternativa à questão social... Aponta-se a transferência dos serviços sociais para a sociedade sob o discurso ideológico da autonomia, solidariedade, parceria e democracia... Ora, a chamada parceria nada mais é que a transferência de verbas e fundos do Estado, substituindo o Movimento Social pelas ONGS» (Desafios Contemporâneos, do IPEA – Instituto de Pesquisa Económica Aplicada).

Quando ouvimos e lemos a comunicação social, depressa nos apercebemos de um facto simples e evidente: o Estado capitalista procura decapitar e privatizar as componentes sociais do Estado. Esta vasta manobra nem sequer é apenas nacional ou visa rebocar para a direita as instituições democráticas, mantendo-as em teoria. Trata-se, na realidade, de um verdadeiro golpe de Estado à escala mundial. Importa, pois, localizar os autores deste crime.

Ao longo da Idade Média, na Europa e no Oriente, o dinheiro e o poder eram partilhados pela Coroa, pela Nobreza e pelas grandes religiões monoteístas organizadas à imagem do poder central, autoritário e imperialista. É certo que existiam já casas bancárias agiotas mas que só muito depois se desenvolveram no sentido das funções da banca moderna. O dinheiro servia, no essencial, para a vida faustosa dos reis e dos nobres ou era investido em despesas das guerras de rapina ou era aplicado nas opulentas ordens religiosas que mantinham corpos de exército vitais para a abertura de novos mercados que viriam a constituir as bases do futuro sistema capitalista mundial.

A riqueza dos ricos produzia a pobreza dos pobres e a miséria das multidões, coisas de pouca ou nenhuma importância para o poder. Por isso, em geral, os levantamentos populares não representavam uma grande ameaça social e eram facilmente esmagados. Até, mesmo, ofereciam aos tiranos certas vantagens. Os pobres morriam jovens, minados por doenças, epidemias, fomes ou outras privações. Eram facilmente substituíveis. Cumpriam os desígnios das classes dominantes que eram deveres implícitos do povo comum: viver algum tempo como escravos, morrer como escravos e ser substituído por novas gerações tão escravizadas como as anteriores mas atraídas por falazes luzes ao fundo do túnel.

Convinha, no entanto, não descurar a questão social.

Nada melhor, para calar a populaça, do que convertê-la a uma única fé no sobrenatural e dar-lhe, pelo menos, alguma coisa que comer. Para se manterem as tiranias tornou-se imperativo aos tiranos a prática da Caridade. Nasceram, como que por milagre, as Misericórdias, sobre terrenos já trabalhados pelos frades e associações mendicantes resultantes da transformação das Ordens Militares em filantropias. Acumulava-se o dinheiro da rapina. Como era inevitável, surgiu a Banca como parceiro do poder.

O negócio ganhou então um aspecto novo: o dinheiro passou a produzir dinheiro. E deu-se um casamento a três: o Estado, a Banca e a Igreja, de braço dado com o universo das sociedades secretas medievais. O seu grande objectivo sempre foi, e é, a petrificação da luta de classes e a instalação definitiva de duas únicas camadas sociais: a dos que podem, querem e mandam e a dos escravos incondicionais.

As forças que governam o mundo de hoje são uma miséria e um nojo. Mas nada trazem de novo. O capitalismo marca passo e é o que sempre foi. A revolta é um direito popular. Cabe às populações decidir como fazê-la. Aos que crêem ou não no divino. Mas sempre de cara descoberta e com o enquadramento das forças que representam dignamente os interesses populares.




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